
Em 14 de janeiro de 2026, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a suspensão indefinida do processamento e emissão de vistos de imigrante para cidadãos de 75 países, incluindo o Brasil. A medida entra em vigor a partir de 21 de janeiro e visa impedir a entrada de estrangeiros considerados em alto risco de depender de programas de assistência social financiados por contribuintes americanos — uma justificativa alinhada à retórica do presidente Donald Trump sobre autossuficiência financeira e redução do “fardo” sobre o sistema público.A suspensão atinge exclusivamente vistos de imigrante, ou seja, aqueles que concedem residência permanente (green card) ou autorizam trabalho definitivo. Categorias afetadas incluem:Reunião familiar: cônjuges, noivos, filhos, pais e outros parentes de cidadãos ou residentes permanentes (IR1/CR1, K1, IR2/CR2, IR5, F1/F2A/F2B/F3/F4, entre outros).Emprego patrocinado: trabalhadores prioritários, profissionais com habilidades excepcionais ou avançadas, investidores que criam empregos (EB-1, EB-2, EB-3, EB-5 e subcategorias como E1/E2/E3/EW3, C5/T5/R5/I5).Outras: diversidade (DV), trabalhadores religiosos (SD/SR), imigrantes especiais e residentes retornando (SB).Vistos de não-imigrante — os mais comuns para brasileiros e outros nacionais — permanecem inalterados e continuam sendo processados normalmente. Isso abrange turismo e negócios (B1/B2), estudantes (F1/M1), intercâmbio (J1), trabalho temporário especializado (H1B/H2A/H2B), transferência intracompany (L1), habilidades extraordinárias (O1), entre outros. A distinção é crucial: a medida não bloqueia visitas curtas, estudos temporários ou empregos sazonários/contratuais, mas paralisa caminhos para fixação permanente.A lista de 75 países afetados é diversa, abrangendo nações da América Latina (Brasil, Colômbia, Uruguai, Guatemala, Haiti, Nicarágua), África (Nigéria, Somália, Etiópia, Gana), Oriente Médio (Irã, Iraque, Síria, Líbano), Ásia (Paquistão, Bangladesh, Nepal, Tailândia) e Europa Oriental (Rússia, Ucrânia não listada, mas Albânia, Bósnia). Muitos desses países já enfrentavam restrições parciais ou altas taxas de recusa; a suspensão generaliza e intensifica o controle.Do ponto de vista crítico, a política reflete uma abordagem restritiva que prioriza critérios econômicos sobre laços familiares ou contribuições potenciais de longo prazo. A justificativa do “public charge” — risco de uso de benefícios sociais — é aplicada de forma ampla e preventiva, sem análise individualizada detalhada em muitos casos, o que pode levar a injustiças. Famílias que planejam reunificação legítima, profissionais qualificados aguardando green card patrocinado ou investidores EB-5 veem processos congelados indefinidamente, gerando incerteza, custos acumulados e rupturas emocionais.Economicamente, o impacto é ambíguo. Enquanto protege recursos públicos no curto prazo, a medida pode reduzir influxo de mão de obra qualificada, empreendedores e familiares que historicamente contribuem via impostos e consumo. Estudos anteriores sobre imigração mostram que imigrantes tendem a ser líquidos positivos para a economia após alguns anos, especialmente em categorias baseadas em emprego ou habilidades. A suspensão também afeta indiretamente setores dependentes de imigração legal, como tecnologia, saúde e agricultura, onde green cards facilitam retenção de talentos.Geopoliticamente, a lista revela seletividade: inclui aliados tradicionais e nações em desenvolvimento, mas exclui grande parte da Europa Ocidental, Canadá, Austrália e Japão — sugerindo foco em fluxos migratórios percebidos como de maior risco socioeconômico. Para o Brasil, o congelamento atinge principalmente famílias com parentes nos EUA e profissionais em processo de residência permanente, sem alterar o fluxo anual de milhões de vistos B1/B2 ou F1.A ausência de prazo definido para a revisão das políticas aumenta a imprevisibilidade. Enquanto o governo promete “reavaliação rigorosa” para garantir autossuficiência, críticos apontam risco de discriminação indireta por origem nacional e sobrecarga no sistema consular já congestionado. Para solicitantes afetados, alternativas como vistos temporários ou espera por eventual reversão tornam-se a única via viável no momento.A decisão reforça a tendência de endurecimento migratório no segundo mandato Trump, priorizando soberania nacional e controle de fronteiras sobre abertura global. Se mantida por longo período, pode redesenhar padrões de migração para os EUA, forçando candidatos a buscar destinos alternativos na Europa, Canadá ou Austrália — e testando a resiliência de redes familiares e econômicas transnacionais construídas ao longo de décadas.
