
Em 15 de janeiro de 2026, o Ministério das Finanças e a Administração Estatal de Impostos da China anunciaram a prorrogação, até 31 de dezembro de 2027, da isenção de impostos sobre renda de juros obtida por instituições estrangeiras no mercado doméstico de títulos de dívida. A medida, em vigor desde 1º de janeiro de 2026, isenta o imposto de renda corporativo e o imposto sobre valor agregado (IVA) incidentes sobre esses rendimentos, mantendo uma política que já vinha sendo aplicada em períodos anteriores.O objetivo declarado é aprofundar a abertura do mercado de títulos chinês, reforçar a atratividade para investidores internacionais e sinalizar compromisso com a integração financeira global. A decisão surge em um contexto de fluxos de capital mais seletivos e voláteis: dados do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), divulgados em dezembro de 2025, indicam saída líquida de US$ 5,5 bilhões em títulos de dívida chineses no período recente. Investidores globais têm priorizado condições de financiamento favoráveis, emissões de dívida e credibilidade das políticas econômicas em meio a incertezas macroeconômicas.Do ponto de vista crítico, a prorrogação revela uma estratégia pragmática de Pequim para contrabalançar desafios internos e externos. O mercado de títulos chinês — um dos maiores do mundo — ainda enfrenta barreiras à plena internacionalização: controles de capital, volatilidade do yuan e percepção de risco regulatório. A isenção fiscal atua como subsídio indireto para atrair capital de longo prazo, ajudando a financiar déficits, estabilizar o yuan e diversificar fontes de financiamento além do endividamento doméstico e de investidores institucionais estatais.No entanto, a medida expõe vulnerabilidades estruturais. A saída recente de capital sugere que investidores estrangeiros permanecem cautelosos, mesmo com incentivos fiscais — possivelmente devido a tensões geopolíticas, desaceleração econômica chinesa, intervenções regulatórias em setores privados e o risco de mudanças abruptas de política. A dependência crescente de influxos externos para sustentar o financiamento do crescimento levanta questões sobre sustentabilidade: quanto tempo esses incentivos podem ser mantidos sem erodir receitas fiscais ou criar distorções no mercado interno?Além disso, a política beneficia predominantemente grandes instituições financeiras globais (fundos soberanos, gestoras de ativos, bancos internacionais), concentrando ganhos em players já dominantes e com menor impacto em fluxos de investimento direto produtivo (FDI), que têm caído consistentemente nos últimos anos. Isso reforça uma abertura financeira seletiva: focada em dívida de baixo risco e passiva, em vez de reformas mais profundas que aumentem transparência, proteção ao investidor e liberalização de contas de capital.Para o sistema financeiro global, a extensão sinaliza que a China continua priorizando atratividade competitiva em um ambiente de “friendshoring” e realinhamento de cadeias de suprimento. Países emergentes que competem por capital estrangeiro observam o movimento como benchmark: isenções fiscais tornaram-se ferramenta padrão para captar recursos, mas sua eficácia depende de confiança institucional e estabilidade macro — áreas onde a China enfrenta crescentes questionamentos.Em resumo, a prorrogação até 2027 é menos uma vitória estratégica e mais uma resposta defensiva a pressões conjunturais. Ela pode estabilizar fluxos de curto prazo e sustentar a narrativa de abertura, mas não resolve os entraves fundamentais à confiança de longo prazo dos investidores internacionais. Enquanto Pequim mantém o controle rígido sobre o sistema financeiro, incentivos como esse servem de ponte temporária — eficaz enquanto durar, mas frágil diante de choques externos ou mudanças de percepção global. O verdadeiro teste virá se, ao fim de 2027, a China conseguirá manter ou ampliar esses fluxos sem depender indefinidamente de subsídios fiscais.
