No início de janeiro de 2026, pesquisadores do Experimental Advanced Superconducting Tokamak (EAST), em Hefei, na China, anunciaram ter superado o limite de Greenwald — uma barreira teórica de 1988 que define a densidade máxima segura de plasma em tokamaks sem perda de estabilidade. O experimento alcançou densidades de plasma de 1,3 a 1,65 vezes acima do limite convencional (faixa típica de operação do EAST entre 0,8 e 1,0), mantendo estabilidade por períodos de 6 a 7 segundos em condições controladas.

O avanço foi obtido por meio de uma estratégia de “plasma-wall self-organization” (PWSO), ajustando parâmetros iniciais: pressão de gás combustível e aquecimento por ressonância ciclotrônica de elétrons (ECRH). Esses controles minimizaram radiação de impurezas e mantiveram temperaturas na região alvo elevadas, permitindo operação em regime “density-free” — onde densidade alta não desencadeia instabilidades. Os resultados, publicados em Science Advances em 1º de janeiro de 2026, representam um passo concreto para aumentar a quantidade de combustível no plasma sem comprometer confinamento, essencial para que reatores produzam mais energia do que consomem.
O EAST, apelidado de “sol artificial” por replicar o processo de fusão termonuclear do Sol (união de núcleos de hidrogênio para formar hélio), opera com campos magnéticos supercondutores para conter plasma a temperaturas acima de 100 milhões de graus Celsius. O dispositivo acumula recordes: em janeiro de 2025, sustentou plasma em alta confinamento por 1.066 segundos (quase 18 minutos) a temperaturas extremas; avanços anteriores incluíram temperaturas iônicas acima de 100 milhões de graus em HL-3 (outro tokamak chinês). A China participa do ITER (reator internacional em construção na França), mas avança paralelamente com experimentos próprios, acumulando dados operacionais enquanto o ITER ainda está em fase de montagem.
Do ponto de vista crítico, o feito é técnico e significativo, mas não representa fusão comercial iminente. Nenhum tokamak global alcançou ignição (produção líquida de energia) ou operação em regime de queima sustentada (deutério-trítio). A quebra do limite de Greenwald resolve um gargalo de densidade, mas fusão viável exige simultaneamente alta densidade, temperatura, tempo de confinamento e eficiência energética — o chamado “triple product” — em escalas muito maiores, com materiais resistentes a nêutrons, gerenciamento de trítio e custos reduzidos.
A liderança chinesa em testes práticos reflete investimento maciço em infraestrutura, planejamento de longo prazo e iterações rápidas — contrastando com atrasos no ITER e foco fragmentado em outros países. No entanto, o hype em torno do “sol artificial” tende a exagerar: fusão continua décadas distante de usinas comerciais, e avanços incrementais não eliminam desafios fundamentais como erosão de paredes, instabilidades de plasma e viabilidade econômica frente a renováveis já maduras.
O episódio ilustra a corrida global por energia limpa quase inesgotável: a China posiciona-se como protagonista em pesquisa aplicada, contribuindo dados valiosos para o ITER e acelerando o conhecimento coletivo. Enquanto isso, o verdadeiro horizonte permanece distante — fusão como solução energética transformadora exige não só recordes laboratoriais, mas integração sistêmica e superação de barreiras que vão além da física do plasma. Por ora, o EAST demonstra que limites considerados “inquebráveis” podem ser superados com engenhosidade; o desafio maior é transformar esses passos em uma fonte de energia prática e acessível.
