
Em meados de janeiro de 2026, a Apple anunciou uma colaboração plurianual com o Google para integrar modelos Gemini e infraestrutura de nuvem da gigante de buscas aos seus Foundation Models internos.
O acordo, confirmado em comunicado conjunto, visa impulsionar recursos futuros do Apple Intelligence, com destaque para uma versão significativamente mais avançada e personalizada da Siri, prevista para lançamento ainda neste ano — possivelmente na primavera.
A parceria marca uma mudança clara na abordagem da Apple: após atrasos repetidos na atualização da Siri (anunciada inicialmente em 2024 e postergada várias vezes), a empresa optou por licenciar tecnologia externa em vez de depender exclusivamente de desenvolvimento proprietário.
O Gemini fornecerá a base para capacidades mais conversacionais, raciocínio multimodal, execução de tarefas multi-etapa e maior contextualização — áreas onde a Siri tradicional tem ficado visivelmente atrás de concorrentes como ChatGPT, Gemini e Claude. A Apple enfatiza que manterá seus padrões de privacidade: processamento prioritário no dispositivo e uso de Private Cloud Compute para tarefas em nuvem, evitando que dados pessoais sejam expostos.
O movimento surge em um momento de pressão acumulada. Após o lançamento inicial do Apple Intelligence em 2024-2025 — focado em recursos on-device como resumo de notificações, edição inteligente de imagens e integração com apps —, a percepção de mercado foi de que a Apple chegou atrasada à festa da IA generativa.
A saída do chefe de IA John Giannandrea em dezembro de 2025 e a realocação de equipes para líderes de produto reforçaram críticas internas e externas sobre falta de direção clara. Analistas apontam que a estratégia de contenção de custos (evitando investimentos bilionários em treinamento de LLMs próprios) pode ter economizado até US$ 130 bilhões, mas também contribuiu para o gap competitivo.
Do ponto de vista crítico, a parceria revela pragmatismo realista, mas também vulnerabilidades. Ao adotar Gemini, a Apple commoditiza parte de sua stack de IA — reconhecendo que modelos de linguagem estão se tornando menos diferenciadores e mais commodity —, o que preserva recursos para hardware e ecossistema. No entanto, depende de um concorrente direto (Google) para o “cérebro” de seu assistente principal, introduzindo riscos de dependência, potenciais conflitos de interesse e questões contratuais (relatos sugerem pagamento anual na casa de US$ 1 bilhão). A privacidade, carro-chefe da narrativa Apple, será testada: mesmo com salvaguardas, qualquer vazamento ou percepção de compartilhamento de dados com Google pode erodir confiança.
Para 2026, o acordo alimenta expectativas elevadas de inovação em produtos: iPhones com IA mais profunda (iPhone 17 series), Macs renovados com chips M5, possível iPhone dobrável, expansão da casa inteligente (hubs com Face ID e IA) e wearables aprimorados. A Siri revampada pode se tornar o catalisador para maior adoção do Apple Intelligence, transformando o ecossistema em uma plataforma mais proativa e contextual.
O verdadeiro teste, porém, não está no anúncio, mas na execução: entrega de experiências que justifiquem o ecossistema premium da Apple sem comprometer privacidade ou bateria.
Se bem-sucedido, 2026 pode marcar a reversão do “atraso em IA” e reposicionar a empresa como líder em IA aplicada ao hardware. Se tropeçar em limitações técnicas, dependência externa ou hype não atendido, reforçará a narrativa de que a Apple, outrora inovadora disruptiva, agora reage mais do que dita o ritmo da revolução tecnológica. Por ora, a parceria sinaliza que, na era da IA, até a Apple precisa de aliados — mesmo que sejam rivais históricos.
