Em meados de janeiro de 2026, o presidente Donald Trump reafirmou publicamente que os Estados Unidos obterão o controle da Groenlândia “de um jeito ou de outro”.

O território autônomo dinamarquês, maior ilha do mundo, ganha relevância estratégica com o derretimento acelerado do gelo ártico, que abre rotas marítimas antes intransitáveis.
A Groenlândia controla a chamada lacuna GIUK — corredor naval entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido que conecta o Ártico ao Atlântico Norte. Com novas passagens navegáveis, o tempo de viagem entre Ásia e Europa pode cair em até 40%, reduzindo custos logísticos e desafiando rotas tradicionais como o Canal de Suez ou o Cabo da Boa Esperança.
Essa transformação cria uma “nova rota da seda” ártica: caminhos mais curtos para comércio global, especialmente para China e Rússia, que investem em quebra-gelos nucleares e infraestrutura polar.
O controle da Groenlândia permitiria aos EUA monitorar e potencialmente regular tráfego naval nessa zona emergente, reforçando sea power — domínio dos mares — em um teatro onde a projeção de poder naval define influência global.

A base Pituffik (antiga Thule), já operada pelos EUA, serve de ponto de vigilância para mísseis balísticos russos ou chineses. Trump justifica a pressão como necessidade de segurança nacional, incluindo interceptores para um “Domo de Ouro” ampliado. Além disso, a ilha abriga vastas reservas de terras raras, urânio, níquel e hidrocarbonetos — minerais críticos para tecnologia e energia.
A Dinamarca, membro fundador da OTAN, respondeu com reforço militar: investimentos de bilhões em defesa e envio de tropas. Aliados europeus — Alemanha, França, Noruega, Suécia e Reino Unido — discutem missões conjuntas de reconhecimento e possível presença permanente no Ártico, sinalizando que a segurança regional será coletiva, via OTAN.
O Artigo 5 do tratado prevê defesa contra ameaças externas, não internas. Uma ação americana contra território de aliado violaria o princípio central da aliança, podendo dissolver a coesão transatlântica.
Especialistas apontam que europeus evitariam confronto direto, optando por pressão indireta: recusa de reabastecimento, fechamento de portos ou limitação de apoio logístico a operações americanas globais.
Criticamente, a abordagem unilateral de Trump expõe contradições: prioriza controle hemisférico, mas arrisca fragmentar a OTAN — ferramenta essencial contra rivais como Rússia e China. A Europa acelera rearmamento autônomo, considerando cenários sem dependência total dos EUA.
O impasse revela que o Ártico não é mais periferia gelada: é novo front de competição por rotas comerciais, recursos e projeção naval. Qualquer escalada altera o equilíbrio de poder marítimo global, com implicações para comércio internacional e cadeias de suprimento.
