
Em 12 de janeiro de 2026, o presidente Donald Trump anunciou sanções imediatas e abrangentes contra o Irã, declarando que qualquer país que mantenha negócios com a República Islâmica pagará tarifa adicional de 25% sobre todas as transações comerciais com os Estados Unidos. A medida, comunicada diretamente via Truth Social e descrita como “final e conclusiva”, intensifica a ofensiva econômica contra Teerã no sexto dia de protestos nacionais que já resultaram em confrontos violentos em cidades como Isfahan e Teerã.
Os protestos, rotulados por manifestantes como “Revolução Nacional”, envolvem multidões exigindo o fim do regime teocrático, com relatos de uso de munição real pelas forças de segurança, feridos e mortes. O Departamento de Estado americano emitiu alerta urgente para cidadãos deixarem o Irã imediatamente, citando prisões em massa, bloqueios de internet, interrupções em transportes e rodovias fechadas. Recomendações incluem evitar manifestações, estocar suprimentos e planejar saídas terrestres para Armênia ou Turquia, sem expectativa de assistência consular direta — uma linguagem que sinaliza percepção de risco iminente de deterioração grave.
A sanção por “contaminação comercial” representa uma escalada qualitativa na estratégia de “pressão máxima”. Ao invés de restringir apenas entidades iranianas ou setores específicos, ela pune terceiros países, forçando uma escolha binária: romper laços econômicos com Teerã ou enfrentar penalidades nos EUA. Isso afeta diretamente nações com comércio significativo com o Irã, incluindo o Brasil, que registrou superávit comercial bilateral de cerca de 3 bilhões de dólares em 2024. Exportadores brasileiros podem ver custos adicionais de até 25% sobre vendas aos EUA, agravando barreiras já existentes em outros setores.
O timing da medida coincide com uma reunião agendada para 13 de janeiro entre Trump, o Secretário de Defesa e o secretário de Estado Marco Rubio para avaliar opções militares e diplomáticas. Autoridades iranianas, por sua vez, afirmam que suas forças estão preparadas para responder a qualquer ataque americano ou israelense, enquanto o regime tenta conter a revolta interna com repressão crescente. O “Pizza Index” — indicador informal baseado em entregas noturnas de pizza ao Pentágono — é citado em círculos de análise como sinal de alerta elevado, sugerindo preparativos para ação ofensiva.
Do ponto de vista crítico, a abordagem combina elementos de coerção econômica, apoio indireto a protestos internos e ameaça militar velada. As sanções podem acelerar o colapso econômico do regime — já fragilizado por inflação crônica, desemprego e sanções anteriores —, mas também correm o risco de unir elites iranianas em torno da narrativa de “resistência ao imperialismo”. Historicamente, pressões externas intensas fortaleceram o controle interno do regime, transformando dissidência em traição. Além disso, punir terceiros países cria precedentes perigosos: viola princípios de comércio multilateral, pode fragmentar alianças econômicas globais e incentivar retalições assimétricas, como bloqueios no Estreito de Ormuz ou ataques a interesses americanos via proxies.
Para o Brasil, a situação expõe vulnerabilidades de uma política externa que equilibra laços com o Sul Global e dependência do mercado americano. A recente foto do ministro Mauro Vieira com autoridades iranianas, usada para condenar ações dos EUA na Venezuela, ganha nova leitura: em contexto de sanções secundárias, tais gestos diplomáticos podem custar caro em termos comerciais. O governo brasileiro enfrenta pressão para esclarecer se manterá relações com Teerã ou priorizará acesso irrestrito ao mercado dos EUA — dilema que se agrava em ano pré-eleitoral.
O risco maior reside na possibilidade de erro de cálculo: sanções que sufocam sem derrubar o regime podem levar a escalada militar, com consequências regionais imprevisíveis — desde interrupção do fluxo de petróleo até envolvimento de Israel e proxies iranianos. A reunião no Pentágono e o alerta de evacuação sugerem que a janela diplomática está se fechando rapidamente. Enquanto o regime iraniano aposta na resiliência e na repressão, e Trump na combinação de estrangulamento econômico com ameaça crível de força, o espaço para desescalada depende de canais discretos que, até o momento, parecem inexistentes.
A crise atual não é apenas sobre o Irã: é um teste à eficácia da coerção unilateral em um mundo interconectado, onde punições secundárias podem gerar externalidades que afetam até aliados comerciais distantes. O desfecho nas próximas 48 a 72 horas — seja colapso acelerado dos protestos, rendição negociada ou escalada armada — definirá se essa pressão máxima resulta em mudança de regime ou em novo ciclo de instabilidade regional.
