
Em meados de janeiro de 2026, o Irã negou publicamente que o manifestante Erfan Soltani, comerciante de 26 anos preso em Fardis (oeste de Teerã), tenha sido condenado à morte ou esteja com execução iminente. A declaração veio da mídia estatal e do Judiciário iraniano, que classificaram reportagens estrangeiras sobre o caso como “fabricação de notícias”. A família de Soltani havia relatado à imprensa internacional e a grupos de monitoramento de direitos humanos que a sentença de enforcamento estava marcada para 14 de janeiro, mas fora adiada — gerando alarme inicial sobre sua vida.O caso ganhou relevância após ameaças explícitas do presidente americano Donald Trump: em declarações recentes, ele advertiu que qualquer execução de manifestantes seria respondida com “medidas muito severas”, exortando os iranianos a continuarem protestando e prometendo que “ajuda está a caminho”. Trump afirmou ter recebido informações de “fontes confiáveis” — inclusive do “outro lado” — de que “a matança no Irã parou” e que não há planos para execuções no momento. Ele se mostrou relutante em endossar abertamente figuras da oposição exilada, como Reza Pahlavi, dizendo que “qualquer regime pode fracassar” e que ainda não é hora de apoiar lideranças específicas.O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, respondeu diretamente: “a forca está fora de questão” e “não haverá enforcamentos nem hoje nem amanhã”. Ele alertou Trump para não repetir “erros” como o bombardeio de instalações nucleares iranianas em junho de 2025 — episódio que causou danos, mas não derrubou o regime.O contexto é de protestos em massa iniciados no final de dezembro de 2025 contra o colapso da moeda e a crise econômica, que rapidamente evoluíram para contestação aberta à legitimidade do governo. Organizações independentes de direitos humanos, como a HRANA, reportam mais de 2.435 mortes de manifestantes (incluindo 13 crianças), com centenas de casos ainda sob investigação. Desde 9 de janeiro de 2026, o Irã impôs bloqueio total à internet, dificultando verificação independente de informações e aumentando o isolamento do país. O espaço aéreo foi fechado por cinco horas em uma noite recente, forçando redirecionamento de voos internacionais; embaixadas ocidentais (como a britânica em Teerã) operam remotamente; e países como EUA, Alemanha, Itália e Polônia emitiram alertas de viagem severos.Medidas de precaução incluem redução parcial de pessoal militar americano e britânico na base Al-Udeid, no Catar — a maior instalação dos EUA na região, com cerca de 10 mil militares —, sinalizando temor de escalada.Do ponto de vista crítico, o episódio revela uma dinâmica de alta tensão, mas também de cálculo mútuo. A negação iraniana pode ser interpretada como recuo tático sob pressão externa: a ameaça de intervenção americana, combinada com a visibilidade internacional do caso Soltani, elevou o custo político de uma execução pública. Trump, por sua vez, reivindica crédito pela “pausa na matança”, reforçando narrativa de dissuasão eficaz sem compromisso com ação militar imediata — uma estratégia que evita escalada total enquanto mantém apoio retórico aos manifestantes.No entanto, a verificação independente permanece limitada pelo bloqueio de internet e restrições a jornalistas. Relatos de grupos como Hengaw (baseado na Noruega) e HRANA continuam apontando repressão violenta, sugerindo que a “pausa” pode ser temporária ou seletiva, não sistêmica. A relutância de Trump em apoiar abertamente a oposição exilada reflete realismo: qualquer intervenção externa arrisca unir iranianos em torno do regime, repetir falhas históricas ou abrir espaço para atores rivais.A situação expõe os limites da pressão externa em regimes autoritários resilientes: ameaças podem frear atos extremos pontuais, mas não necessariamente desmontam estruturas de poder enraizadas. Enquanto protestos persistem e o regime enfrenta sua maior crise desde 1979, o risco de erro de cálculo — de ambos os lados — permanece elevado. Uma execução futura ou nova onda de violência poderia reacender a retórica americana, transformando pausas táticas em pontos de inflexão imprevisíveis. Por ora, o que se observa é menos uma vitória clara de um lado e mais um equilíbrio frágil sustentado por medo mútuo de consequências maiores.
