
Em 9 de janeiro de 2026, o empresário Joesley Batista, controlador da J&F Investimentos e da JBS, realizou reunião reservada em Caracas com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. O encontro, parte de uma agenda que incluiu contatos prévios e posteriores com autoridades americanas em Washington, ocorreu em voo privado entre as duas capitais. Batista avaliou, segundo relatos consistentes, que Rodríguez demonstra disposição para abrir o setor de petróleo e gás venezuelano a investimentos estrangeiros, reordenar a indústria energética e manter compromissos firmados com os Estados Unidos.A Fluxus — braço de energia da família Batista, adquirido em 2023 e consolidado com ativos na Bolívia e Argentina — está analisando oportunidades concretas no país. Essa movimentação se insere em sequência lógica: em novembro de 2025, Batista já havia se encontrado com Nicolás Maduro, então presidente, em meio à escalada de pressão americana que culminou na captura militar de Maduro em 3 de janeiro. Agora, com Rodríguez no comando interino, o foco migra para viabilidade de negócios em um cenário pós-chavismo sob forte influência externa.A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas décadas de má gestão, sanções internacionais e subinvestimento reduziram drasticamente a produção — de cerca de 3 milhões de barris diários no início dos anos 2000 para níveis abaixo de 800 mil em períodos recentes. A abertura sinalizada por Rodríguez poderia, em teoria, atrair capital necessário para recuperação de campos maduros, modernização de infraestrutura e aumento de exportações. Para os EUA, que já anunciaram planos de investimentos bilionários por petroleiras americanas, isso representa oportunidade de reconfigurar cadeias de suprimento energéticas na hemisfério ocidental, reduzindo dependência de fontes mais distantes ou geopoliticamente instáveis.No entanto, do ponto de vista crítico, o quadro revela dinâmicas de assimetria e continuidade de dependência. A disposição de Rodríguez para “manter compromissos com Washington” sugere alinhamento com demandas americanas — possivelmente incluindo acesso preferencial a recursos, contratos favoráveis a empresas ocidentais e afastamento de parcerias anteriores com China, Rússia e Irã. Essa transição não surge de reforma interna orgânica, mas de intervenção externa direta: a remoção forçada de Maduro alterou o equilíbrio de poder, tornando a nova liderança mais receptiva a condições impostas de fora.A participação de um empresário brasileiro como interlocutor informal destaca a porosidade entre interesses privados e geopolítica. Batista, com histórico de relações comerciais na Venezuela (fornecimento de alimentos e explorações energéticas), posiciona-se como ponte entre Caracas, Washington e capitais latino-americanas. Seu trânsito facilita avaliações de risco e oportunidades, mas também expõe conflitos potenciais: decisões empresariais influenciadas por contextos políticos voláteis podem priorizar ganhos de curto prazo em detrimento de sustentabilidade ou soberania local. A Fluxus, ainda em fase de consolidação regional, arrisca exposição a instabilidades políticas, flutuações de preços do petróleo e eventuais contestações jurídicas sobre ativos nacionalizados no passado.Para a Venezuela, a abertura prometida pode acelerar recuperação econômica, mas sob termos que limitam autonomia: maior controle estrangeiro sobre recursos estratégicos tende a reproduzir padrões históricos de extrativismo dependente, com benefícios concentrados em elites e multinacionais. A ausência de detalhes sobre prazos, condições contratuais ou salvaguardas ambientais e sociais reforça incertezas — promessas de investimento nem sempre se traduzem em transferência efetiva de tecnologia ou desenvolvimento local.O episódio ilustra como crises geopolíticas aceleram reconfigurações econômicas, mas frequentemente às custas de soberania nacional. Enquanto Rodríguez sinaliza pragmatismo para atrair capital, o preço pode ser uma nova forma de dependência energética, agora ancorada em Washington em vez de Caracas. Para observadores regionais, incluindo o Brasil, o caso serve de alerta: em contextos de transição forçada, atores privados com canais privilegiados podem moldar narrativas e oportunidades, mas o equilíbrio entre lucro e estabilidade de longo prazo permanece frágil. Os próximos meses dirão se a “abertura” anunciada resulta em prosperidade compartilhada ou em mais um ciclo de promessas não cumpridas na rica, porém explorada, bacia do Orinoco.
