
Em meados de janeiro de 2026, a Groenlândia — território autônomo do Reino da Dinamarca — tornou-se o epicentro de uma tensão transatlântica sem precedentes recentes. Após reiteradas declarações do presidente Donald Trump afirmando que os Estados Unidos precisam assumir o controle da ilha por razões de segurança nacional, países europeus membros da OTAN iniciaram o envio de contingentes militares limitados para o território ártico. O movimento, descrito oficialmente como missões de observação, reconhecimento e exercícios conjuntos, sinaliza apoio explícito à soberania dinamarquesa e à autodeterminação groenlandesa.
A Groenlândia ocupa posição estratégica única: situada entre a América do Norte e a Europa, controla acessos emergentes no Ártico à medida que o derretimento das calotas polares abre novas rotas marítimas e expõe recursos minerais. Os EUA já mantêm presença militar significativa na Base Pituffik (antiga Thule), operada pela Força Espacial desde acordos bilaterais de 1951 que permitem instalações sem questionar a soberania dinamarquesa. Trump, no entanto, tem defendido controle total, alegando vulnerabilidades frente a interesses russos e chineses na região — alegação contestada por autoridades dinamarquesas, que negam presença naval chinesa recente significativa.
Em 14 de janeiro, representantes da Dinamarca e da Groenlândia reuniram-se em Washington com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. As conversas destacaram “desacordo fundamental” sobre o futuro da ilha, com a administração americana mantendo a posição de que qualquer solução aquém da posse plena é inaceitável. Trump reiterou publicamente que “algo vai se resolver”, mantendo a retórica de aquisição “do jeito fácil ou difícil”, interpretada como pressão diplomática e econômica potencial.
A resposta europeia foi coordenada e visível. Dinamarca anunciou aumento de sua própria presença militar, com planos para contingente mais permanente ao longo de 2026, em parceria com aliados da OTAN. França enviou cerca de 15 soldados a Nuuk; Alemanha, 13; Noruega e Suécia, pequenos grupos de oficiais; Reino Unido, Holanda e outros sinalizaram participação rotativa. O objetivo declarado é reforçar a segurança árctica coletiva, demonstrar que a defesa da região não depende de mudança de soberania e evitar que a pressão unilateral americana fragmente a aliança.
Essa dinâmica expõe fissuras profundas na OTAN. O Artigo 5 do tratado — defesa coletiva em caso de ataque armado — pressupõe unidade contra ameaças externas. Uma ação coercitiva americana contra território de aliado violaria esse princípio, destruindo a credibilidade da aliança e incentivando rivais a explorarem divisões ocidentais. Analistas apontam que invasão direta, embora militarmente viável dada a disparidade de forças, seria politicamente suicida: alienaria parceiros europeus, questionaria a liderança global dos EUA e poderia levar a realinhamentos estratégicos imprevisíveis.
O cenário mais provável permanece na esfera da coerção não militar: tarifas comerciais, sanções indiretas ou guerra narrativa para forçar concessões. A Groenlândia, com forte apoio popular à manutenção do status quo e resistência a intervenções externas, reforça sua posição de autodeterminação. O primeiro-ministro polonês Donald Tusk alertou que tal escalada representaria o “fim do mundo como conhecemos”, ecoando temores de colapso da ordem transatlântica pós-1945.
Do ponto de vista crítico, a crise revela contradições estruturais. Os EUA veem o Ártico como teatro prioritário em competição com grandes potências, mas sua abordagem unilateral ignora tratados existentes e a autonomia local, minando a legitimidade de suas demandas de segurança. A Europa, por sua vez, demonstra unidade reativa, mas contingentes simbólicos limitam o impacto dissuasório real — servem mais como sinal político do que como barreira operacional. O risco de erro de cálculo persiste: gestos de posicionamento podem ser lidos como provocação, ampliando tensões em vez de contê-las.
No horizonte, o desfecho dependerá da capacidade de diplomacia de alto nível para preservar face e interesses mútuos. A Groenlândia não é mero território remoto; é laboratório para a resiliência de alianças em era de multipolaridade acelerada. Enquanto tropas europeias chegam em números modestos e exercícios conjuntos se iniciam, o verdadeiro teste não está na força militar, mas na habilidade de gerir desacordos sem autodestruição — um equilíbrio que o Ocidente não enfrenta com tamanha urgência desde o fim da Guerra Fria.
