Em meados de janeiro de 2026, o presidente Donald Trump intensificou críticas públicas ao Federal Reserve (Fed) e ao seu presidente, Jerome Powell, associando diretamente as taxas de juros elevadas ao encarecimento da casa própria para milhões de americanos. Essa pressão ocorre em um contexto de alta persistente nos preços de imóveis e hipotecas, que continua a pesar sobre o orçamento familiar médio, mesmo com sinais de moderação na inflação geral.
O cerne da controvérsia reside na relação entre a política monetária do Fed e o mercado imobiliário. O Fed controla a taxa de juros de referência (federal funds rate), que influencia indiretamente as taxas de hipotecas de longo prazo — especialmente as fixas de 30 anos, o produto mais comum nos EUA. Quando o Fed mantém ou eleva juros para combater inflação, os custos de empréstimos sobem, encarecendo financiamentos imobiliários e reduzindo a acessibilidade à propriedade. Desde o início da pandemia, em 2020, os preços médios de residências nos Estados Unidos subiram cerca de 55% até o terceiro trimestre de 2025, segundo dados da Associação Nacional de Construtores de Casas. No mesmo período, os pagamentos médios de aluguel aumentaram mais de 35%, conforme levantamento da Zillow. Em janeiro de 2026, as taxas médias de hipotecas de 30 anos fixas oscilam entre 5,93% e 6,16%, dependendo da fonte (Zillow, Freddie Mac, Bankrate), patamares significativamente acima dos mínimos históricos abaixo de 3% vistos em 2020-2021, mas ainda elevados em comparação com décadas anteriores.
Trump argumenta que essas taxas “asfixiam” o mercado imobiliário e dificultam o sonho americano da casa própria. Ele prometeu um plano “agressivo” para reduzir custos habitacionais, incluindo diretrizes para que Fannie Mae e Freddie Mac — as duas agências governamentais que garantem a maior parte das hipotecas nos EUA — comprem até US$ 200 bilhões em títulos lastreados em hipotecas. A medida visa injetar liquidez no mercado secundário de hipotecas, pressionando para baixo as taxas de longo prazo. Outras propostas incluem proibir investidores institucionais de comprar casas unifamiliares (para reduzir competição com compradores individuais), desburocratizar aprovações de construção e aliviar encargos fiscais em transações imobiliárias.
A crítica ao Fed ganha contornos mais graves com ações recentes do Departamento de Justiça, que emitiu intimações relacionadas a supostas irregularidades em um projeto de reforma da sede do banco central, avaliado em bilhões de dólares. Powell classificou a investigação como pretexto para pressionar por cortes de juros mais rápidos, afirmando que se trata de uma tentativa de comprometer a independência do Fed — princípio que permite decisões baseadas em dados econômicos, não em preferências políticas. Trump negou envolvimento direto na investigação, mas reiterou publicamente que planeja nomear um sucessor para Powell (cujo mandato termina em maio de 2026) comprometido com reduções mais agressivas nas taxas.
Do ponto de vista econômico, a independência do banco central é considerada essencial para credibilidade e estabilidade de longo prazo. Cortes precipitados de juros podem estimular demanda por crédito e moradia, mas também reacender inflação — especialmente em um ambiente de oferta limitada de imóveis. Economistas apontam que o problema central da acessibilidade habitacional não está apenas nas taxas de juros, mas em um déficit estrutural estimado em 3 a 4 milhões de unidades, conforme relatório do Goldman Sachs de outubro de 2025. Sem aumento significativo na construção — limitado por regulamentações locais, custos de materiais, mão de obra e zoneamento —, reduções de juros tendem a elevar preços ainda mais, beneficiando proprietários atuais em detrimento de novos compradores.
Medidas como compras massivas de títulos pelo governo também carregam riscos. Experiências passadas, incluindo intervenções pós-2008, mostram que injeções de liquidez podem distorcer mercados e criar vulnerabilidades sistêmicas se não forem acompanhadas de reformas na oferta. Além disso, a pressão política sobre o Fed pode afetar a confiança de investidores globais no dólar e nos Treasuries, instrumentos fundamentais para financiamento da dívida americana.
O debate revela uma tensão clássica entre objetivos de curto prazo — aliviar o custo imediato da moradia para ganhar apoio popular — e salvaguardas institucionais de longo prazo. Enquanto Trump busca resultados visíveis em um indicador sensível como o acesso à propriedade, o Fed prioriza equilíbrio entre crescimento, emprego e controle inflacionário. Mercados projetam cortes modestos em 2026, mas sem garantias de impacto significativo nos preços de casas sem expansão da oferta.
No horizonte, o desfecho dependerá de como o governo e o Congresso lidam com barreiras regulatórias à construção, de eventuais nomeações no Fed e da evolução da economia real. Para famílias americanas, o custo da moradia continua sendo um dos principais vetores de insatisfação econômica, independentemente de quem controle as alavancas monetárias. Esclarecer essa dinâmica ajuda a entender por que um tema aparentemente técnico — a taxa de juros — ganha centralidade no debate político atual.
